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Sunday, January 30, 2011

As barbaridades da TV brasileira

Ela já tem 60 anos. É uma idosa, experiente, já passou por muita coisa. Mas continua com uma mentalidade de uma adolescente de 13 anos que ama Crepúsculo e o Fiuk. Simplesmente não dá para entender algumas coisas que a gente vê na TV brasileira. E me refiro à todos os padrões de canais, desde aqueles mais simples até aqueles de grandes conglomerados do país. Da CNT à Canção Nova, do Canal 21 até a toda poderosa Rede Globo de televisão, todas elas, TODAS, têm seus podres. E eles não estão guardados, não! Estão na grade de programação!

Quem nunca encontrou, enquanto zappeava pelos canais, um daqueles programas que prometem dinheiro fácil? Basta a pessoa ligar, acertar uma palavra que está embaralhada na tela e pronto, lá se vão cinco mil reais para a conta. Não sei se tem alguém idiota o bastante para cair nesse tipo de golpe, mas, pensando bem, deve ter sim: de onde esse povo tira dinheiro para comprar tantos horários na TV desse jeito? Fora os apresentadores... Ahh, coisa fina! Das duas, uma: ou eles pensam que a gente é surdo (porque gritam que é uma maravilha), ou que a gente é débil mental...

Outra coisa que eu não consigo entender é como que o governo permite que programas religiosos que OBVIAMENTE só estão na TV para pedir dinheiro aos pobres mortais, continuem indo ao ar, todos os dias. Esses dias, um pastor pedia que, no mínimo, os fieis depositassem na conta R$200,00, R$100,00 ou R$50,00. Isso é assalto, em rede nacional. Será possível que só eu ache isso errado? Acho que não.

Mas depois de programas golpistas de quizzes e programas religiosos (não menos golpistas), podemos falar também das pseudo-celebridades. Eles estão por toda parte. Por incrível que pareça, é na Globo o maior número deles por metro quadrado. Além do famigerado Big Brother Brasil (não vou falar sobre isso), temos algumas pessoas que eu, simplesmente, não sei por que estão na mídia. Não são atores. Não são apresentadores. Não são absolutamente nada e estão lá, na grade.

Aqui vou citar nomes: afinal, Bruno de Luca, o que você faz da vida a não ser puxar o saco do Ronaldo Fenômeno ou da Fernanda Paes Leme? Ganha dinheiro para ficar na geladeira da Globo e participar (e puxar o saco, claro), do Faustão? Enfim, se alguém puder me responder o que esse cidadão faz que preste, me informe.

Quem ai quer uma TV de qualidade põe a mão aqui. E por favor, não vamos ter que esperar mais 60 anos, certo?

Monday, January 17, 2011

Os Livros que eu nunca vou ler #02

Recentemente, fiz um post do qual eu gostei muito falando sobre alguns livros que, de tão toscos, bregas, horrendos ou qualquer outro adjetivo pejorativo, eu jamais leria. Pois bem, foi um desabafo que deu uma certa repercussão, e me fez voltar ao assunto, depois que eu vi essa manchete fantástica no caderno Ilustrada, da Folha.com, nesta semana:


Pois é, esse simples texto de 54 caracteres mostra muita coisa: 1) Que a música têm passado por uma fase negra aqui no Brasil, devido à esses Restart, Cine, Replace, Hori e demais bandas coloridas; 2) Que além de um péssimo gosto musical, os fãs desses lixos também têm um péssimo gosto para a leitura; 3) Que o mercado editorial está desesperado e aceita qualquer obra em seu catálogo; 4) E que eu estou c*gando e andando pra esse povo.

Se o problema parasse por ai, tudo bem, eu até fingia demência sobre o assunto. Mas não. Como diz sabiamente o ditado popular, "desgraça pouca é bobagem". Basta uma simples pesquisada na internet para achar ainda mais atrocidades literárias. Essa aqui, por exemplo: "O Diário de Fiuk". Sério, eu senti arrepios na espinha quando vi que isso foi publicado.

Sábio visitante que está lendo esse singelo post, me diga, sinceramente: o que um cara que pensa que é cantor, que acha que é ator, que tem a ilusão de ser galã de televisão (tudo isso sendo fortalecido pela Rede Globo, que quer nos jogar esse sapo pela goela abaixo), que só apareceu na mídia porque é filho de uma pessoa famosa (no caso, o cantor, de verdade, Fábio Júnior), tem de tão importante, estarrecedor e bombástico para nos contar? E o pior, foi o próprio Fiuk, o mais "fodão" da atualidade na TV, quem escreveu o livro, em forma de diário. O que esse tipo de publicação pode trazer de bom à alguém? Será que ele tem um capítulo falando como é viver sendo uma pseudo-celebridade que só aparece nos sites de gente famosa porque é filho de um deles? Duvido.

Ah, e não se iluda se você acha que esse "problema" é exclusivo dos brasileiros. Lá na terra do Tio Sam, na terra dos dólares, na idolatrada Estados Unidos da América, existem os "Fiuks" e "Restarts" dos americanos. Sim, ele mesmo, o cara que quer ser o novo Michael Jackson, que passa glitter nos lábios, que deve alisar até os pentelhos, o cara do cabelo lambido, o Justin Bieber. O guri já tem, nada mais, nada menos, do que duas biografias lançadas (!?), sendo apenas uma oficial.

"Justin Bieber, uma Biografia não Autorizada", do jornalista britânico Chas Newkey-Burden, tem 224 páginas e conta a curta trajetória (ainda bem que ele assume), do menino até o estrelato, além do surgimento de suas primeiras espinhas, da primeira punheta e a primeira chapinha. Sim só pode ser isso que o livro mostra porque que história um moleque de 16 anos tem para contar? Fala a verdade: não é um Fiuk menor de idade? A única diferença é que o pai do "Justeen" não é famoso e nunca pegou a Glória Pires.

Bom já vou ficando por aqui com o segundo "Os Livros que eu nunca vou ler"... Senão, daqui a pouco, vão estar me xingando muito no Twitter pela puta falta de sacanagem que eu estou fazendo. Depois de Geisy Arruda, ex-BBB's, artistas de qualidade duvidosa na música e filhos de celebridades, quem mais vai estampar capas de livros por esse mundo afora? Sério, eu tenho até medo de esperar para ver.

Tuesday, January 11, 2011

Os Livros que eu nunca vou ler

Quem me conhece sabe que eu tenho vários hobbys, um mais nerd do que o outro: assistir à um bom filme no cinema, passar horas jogando videogame ou lendo. E eu leio de tudo, desde gibis da Turma da Mônica até quadrinhos orientais (mangás), passando ai por bula de remédio e rótulo de shampoo. Já li grandes clássicos, já li autores quase desconhecidos. Já li romances de ficção, policiais e fantásticos. Já li livros reportagens e biografias. Ou seja, entre todos os meus hobbys, a leitura é com certeza um dos mais presentes.

Mas não é só porque eu leio de tudo que sou obrigado a engolir algumas coisas que eu vejo à venda nas lojas físicas ou virtuais. A cada dia, vejo mais e mais títulos tão absurdos que me fazem pensar quem, em sã consciência, compraria uma obra dessas (a não ser, claro, para dar de presente num possível "Amigo da Onça"). Pesquisando na internet, não é difícil encontrar esses livros que não saem da primeira edição.
"Geisy Arruda: Vestida para Causar", do jornalista Fabiano Rampazzo, é só um exemplo. Saca só a sinopse: "Geisy Arruda foi manchete dos principais jornais do Brasil quando, após aparecer com um vestido provocante e ter sido ofendida por alunos da faculdade em que cursava Turismo, foi expulsa da instituição. Neste livro, ela, que agora aparece nos programas de TV e aproveita seus 15 minutos de fama, conta como tudo aconteceu."

Quantos erros você encontrou só nesse trechinho? Eu? Vários. Vamos à eles. 1) É um livro sobre uma menina que foi expulsa de uma faculdade. Quantas vezes isso não acontece por esse Brasilzão sem porteira? 2) É um livro sobre uma pseudo-celebridade de apenas 15 minutos de fama... Ok, o que uma pessoa desse nível pode ter de interessante à contar? 3) No livro, ela conta como tudo aconteceu. Ah, fala sério: quantas entrevistas com essa mesma pauta ela deu, desde o acontecido? Vou parar por aqui com minhas considerações, para o meu próprio bem (e o seu também leitor). Mas ai vai uma perguntinha ao autor e à Geisy: você fala ai no seu livro que, muitas vezes, transava com taxistas em troca de uma viagem? Dúvido!

Olha ai o nível da pessoa que o Brasil transforma em celebridade!

Ah sim, e se o assunto é pseudo-celebridades, quem é a campeã em criá-los? Sim, a Vênus Platinada do Sr. Roberto Marinho, a Rede Globo e seu "Big Brother Brasil", odiado por poucos e adorado por milhões. Esse é o lar de gente que fica famosa com a mesma facilidade que desaparece da mídia: em semanas. Antes, uma brincadeira: você consegue se lembrar do nome de TODOS os ex-BBB's?? Aposto que não! E o que eles fazem para volta à tona, à mídia, a ser amado pelo povo novamente? Um prêmio se você adivinhar... Bingo, lançam livros auto-biográficos! Exemplos são muitos, então prepare-se: o que você vão ler em seguida pode provocar ânsias de vômito, mal-estar ou diarreia.


Ainda Lembro”, de Jean Wyllys. 112 páginas por apenas R$ 6,90 (o que ainda é caro). Sinopse? Esta: Vencedor do "Big Brother Brasil" em 2005, o professor universitário Jean Wyllys conta qual foi o impacto da fama no seu cotidiano. Ele assumiu sua homossexualidade durante o reality show. Sobre a família, ele diz que o pai "tinha problemas com o álcool" e morreu de câncer na base da língua. A segunda parte do livro de Jean traz crônicas e contos antigos.






"Diário Secreto de uma Ex-BBB: A História é Minha, Conto Para Quem Eu Quiser" (ou seja, um grupo bem seleto), da “escritora” Fani Pacheco. No livro são tratados assuntos dramáticos (tadinha) da vida de Fani Pacheco, como a separação dos pais e a doença da mãe. Ela conta como fazia para cuidar da avó, muito idosa, e da mãe, que sofria de esquizofrenia. Ela ainda conta experiências sexuais e fantasias que povoaram sua cabeça. Há um capítulo dedicado ao Big Brother e a relação que estabeleceu com Alemão e Iris. Além de outras curiosidades.





Ah, calma que o pior ainda está por vir:

Bastidores de uma Panela de Pressão”, de Vanessa Cristina Soares Dias. Todos se lembram (todos? Têm certeza?) do dia em que Tina se rebelou dentro de um reality show e parou o país. Ela gritou, chorou e ba
teu panela, não engolindo calada uma competição desigual. Mas aquilo foi apenas o que as câmeras mostraram. Neste livro, a ex-BBB conta tudo sobre a sua experiência na "casa mais vigiada do Brasil" - desde a sua seleção até os bastidores das grandes confusões que arranjou. Ou seja, um clássico imperdível!





Agora, fala sério? Você leitor, que é uma pessoa inteligente e de bom gosto, seria capaz de ler livros desse tipo? Ok, ok, eu respeito o mercado editorial, sei que ele precisa sobreviver e sei que há público para tudo, até mesmo para livros de biografias de pseudo-celebridades. Mas, ao invés de ler essas drogas literárias, não seria melhor um Machado de Assis? Deixo a dúvida no ar, e também os links de cada livro. Vai que te dá uma curiosidade louca de dar uma "espiadinha" nessas obras!

Friday, December 24, 2010

Feliz Olhar Novo!

O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história.
O grande lance é viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o aqui e o agora. Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais... Mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho?
Quero viver bem! Este ano que passou foi um ano cheio. Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal. A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor que acabou. Normal.
O ano que vai entrar não vai ser diferente. Muda o ano, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com o seu dia? Com o seu bom humor? Com a esperança?
O que desejo para todos nós é sabedoria!
E que todos saibamos transformar tudo em uma boa experiência! Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim... Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria 3, a dos amigos. Ou mude de classe, transforme-o em colega. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.
O nosso desejo não se realizou? Beleza, não tava na hora, não deveria ser a melhor coisa para esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro):
Cuidado com seus desejos, eles podem se tornar realidade.
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade as coisas ficam diferentes.
Desejo para você esse olhar especial.
O ano que vai entrar pose ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro. O ano que vai entrar pode ser o bicho, o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular... ou... Pode ser puro orgulho! Depende de mim, de você! Pode ser e que seja!!!
Feliz olhar novo!!! Que o ano que se inicia seja do tamanho que você fizer.
Que a virada do ano não seja somente uma data, mas um momento para repensarmos tudo o que fizemos e que desejamos, afinal sonhos e desejos podem se tornar realidade somente se fizermos jus e acreditarmos neles!!!

(Carlos Drumonnd de Andrade)

Friday, December 17, 2010

Girassóis

Um dia cinzento numa cidade feia.
Ruas movimentadas e barulhentas. Carros novos e velhos, motocicletas e bicicletas. Ônibus abarrotados. Caminhões gigantes e grosseiros. Pedestres atrevidos. Buzinas, conversas, gritos, motores, freios, aceleradores. Movimento e barulho.
Ruas sujas e mal-cheirosas. Pichações em paredes limpas. Pichações em paredes sujas. Concreto. Cinza por toda a parte. Lixo espalhado na sarjeta. Entulho atrapalhando o caminho. Cheiro de esgoto misturado ao cheiro de pão assando. Gente que não passou desodorante ao lado de gente que passou desodorante demais.
Uma subida eterna numa dessas ruas. Um muro sujo, com grades de ferro colocados para impedir roubos. Saltos. O muro sujo e as grades gastas protegem mato. Muito mato. Em meio ao verde vivo, o amarelo iluminador de uma flor. Vários pontos amarelos em meio ao verde.
Girassóis.
Girassóis em meio à um dia nublado e cinzento.
Um dia sem sol, mas iluminado por muitos girassóis.
Um sorriso brota numa face tristonha, assim como a luz brota num dia cinzento.

Tuesday, December 7, 2010

A amizade emociona


Lá estava ele, no palco, lugar onde adora estar. Mas dessa vez era por outro motivo. ELe não encarnava nenhum personagem, era ele mesmo. A sua camiseta estampava os arlequins do anonimato, da fama e do esquecimento, enquanto seu rosto estampava um nervosismo sem fim. Então, ele agradeceu e começou a falar. Oratória nata, claro. Encantou durante os 30 minutos que lhe eram designados. Continuou encantando também depois, amigos e professores. Assim como eu, ele demorou quatro anos para estar ali. Quatro anos de uma certa dor de cabeça, que já começa a dar saudade.

Ao término, as palmas. E elas vieram arrebentando tudo, como uma onda que estoura na praia na maré alta. Ele fechou os olhos e socou o ar. "Consegui, porra!". Não leio mentes, mas tenho quase certeza que foi nisso que ele pensou. Foi exatamente o que eu pensei quando terminei de falar também. A banca, só elogios. Rasgados. Sem suspense. E veio o "Aprovado", aquela palavra que todos esperam (e querem), ouvir nessa altura do campeonato. E com ela veio uma nova onda de aplausos, gritos e assovios. Vieram pulos lá no palco e novos socos no ar. Vieram as lágrimas. De felicidade.

Todos estavam felizes.
Ver um amigo se dar bem na vida é algo que faz bem pra nossa alma.
Enquanto escrevo essas palavras, olho para a capa de "Trifásico" e me orgulho dele. Do seu autor. Não tive relação nenhuma com o resultado final, mas ver ali, naquela folha de papel, aquela dedicatória direcionada a mim, emociona. A amizade emociona.

Monday, December 6, 2010

Quatro anos. Cinco meses. Uma sigla. Uma palavra.

2007. 2008. 2009. 2010...
Esses foram os anos que eu passei dentro de uma faculdade, mais precisamente, a de jornalismo. Entrei sem saber se era isso mesmo que eu queria para mim, passei pela crise do segundo ano, cheguei ao terceiro mais motivado e entrei no quarto e último pensando que fiz a escolha certa. Que bom.
Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro...
Os quatro anos anteriores nos prepararam para esses cinco meses em específico. Aquele em que devemos colocar em prática tudo o que aprendemos até então. Criação de Pautas. Finalização de Roteiros. Gravações de Sonoras. Entrevistas. Decupagens. Coisas que se tornaram atividades cotidianas.
TCC...
Correria. Brigas. Discussões. Mais correria. Agendas lotadas. Horários ingratos. Entrevistas desmarcadas. Fontes não localizadas. Viagens caras. Equipamentos caros. Nervosismo. Estresse. Noites mal dormidas. Trabalho de lado. Família de lado. Vida social de lado. Isso é só um aperitivo de como é fazer um Trabalho de Conclusão de Curso, independente da mídia escolhida. Tudo isso só para ouvir uma única palavra...
"Aprovado".

Friday, November 26, 2010

A Cidade das Cabeças Baixas


Era uma vez uma cidade como qualquer outra. Era uma cidade cheia de prédios altos, ruas movimentadas, motoristas histéricos, vielas mal-cheirosas, mendigos jogados na sarjeta e lojas de madames infelizes. Na caída da noite, quando a iluminação natural do sol dava lugar à escuridão acolhedora, luzes artificiais iluminavam bares toscos, prostíbulos abarrotados e assaltantes no aguardo de sua próxima vítima. Como dito, era uma cidade como tantas outras espalhadas pelo mundo. Mas uma coisa era muito particular nessa cidade: todos caminhavam de cabeças baixas, olhando para o chão, olhando os próprios pés. Por isso, o lugar era conhecido como "A Cidade das Cabeças Baixas".

Na "Cidade das Cabeças Baixas", nenhuma pessoa cumprimentava a outra pela manhã, durante o café. Ao acordar, as pessoas sentavam-se à mesa e comiam, fixos no prato à sua frente, em silêncio. Pareciam seres estranhos. Na "Cidade das Cabeças Baixas", ao sair de casa e caminhar pelas ruas, as pessoas não se olhavam. Os mendigos, jogados ao chão, eram a principal visão dos moradores, assim como as bocas-de-lobo, as raízes das árvores, os pés dos transeuntes. Ninguém se importava com os olhos das pessoas. Na "Cidade das Cabeças Baixas", tudo, e todos, pareciam tristes.

Em meio à todas essas pessoas havia um rapaz. E ele era exatamente como os outros, afinal, morava na "Cidade das Cabeças Baixas". Ele também andava cabisbaixo pelas ruas, sem admirar a beleza de um céu azul ou o brilho das estrelas presas no veludo escuro da noite. Mas, um dia, a vida desse garoto mudou. O sol já dava lugar ao crepúsculo diário da cidade. Assim como em todos os dias, os carros passavam, velozes, na ânsia de chegar às suas garagens. Mãos nervosas acionavam as buzinas. Mães nervosas berravam com os filhos. Um mar de gente de cabeças baixas, e o jovem era apenas mais um gota.

Foi quando ele avistou um objeto no chão, próximo à um alto edifício residencial. O rapaz parou, e ficou observando. Ombros apressados batiam contra o seu, fazendo-o perder o equilíbrio. Ele abaixou-se e pegou o objeto. Não era nada demais, só um celular que, agora, parecia quebrado. O rapaz não deu muita importância, mas quando se preparava para continuar sua caminhada, foi surpreendido por uma voz:

- Hei, você! Isso aí é meu! - gritou uma voz doce e agradável, que parecia vir do alto.

Incrível como a gente nunca sabe quando vamos fazer algo pela primeira vez na vida. Foi assim que aconteceu com o rapaz. Ao ouvir aquele chamado, ele levantou o olhar para o prédio. Era a primeira vez que ele via algo tão bonito. Não, não me refiro à construção em si, uma série de apartamentos com belas janelas brancas com cortinas esvoaçantes, assim como também não me refiro ao céu colorido, que ia do azul ao roxo, passando por uma explosão escarlate do final da tarde, tudo isso elementos do cotidiano nos quais ele nunca havia reparado. Me refiro à dona da voz, com seu cabelo louro jogado para trás pelo vento. A garota postava-se debruçada sobre o parapeito de um dos apartamentos, olhando para baixo, mas de uma maneira diferente de como o garoto olhava.

E ela o fixava. Havia falado com ele, que por sua vez, ficou paralisado. Eram tantas novidades no seu mundinho cabisbaixo. Teve vertigem e quase caiu de costas. Naquela cidade onde nunca ninguém olhava nos olhos de outra pessoa, ela o fez. Naquela cidade onde uma pessoa jamais dirigia a palavra à outra, ela também o fez. O garoto sorriu. Também era uma das poucas vezes que ele fazia isso.

- Espere ai! - voltou a gritar a garota, desaparecendo da janela.

O jovem continuou olhando para cima e quando se deu conta, ela estava ao seu lado, imóvel. Sua mão estava estendida, com a palma virada para cima. Com um sorriso, pediu o aparelho de volta. Entorpecido, o rapaz o devolveu. A garota sorriu em agradecimento, mostrando dentes brancos e simpáticos. Deu meia volta, jogando os longos cabelos contra sua face e desapareceu.

Ele ficou ali, parado, em meio à uma gente apressada, que trombava com ele e não pedia desculpas. Ele não se importou. Deu meia volta e olhou o sol poente, lançando sobre a cidade seus últimos raios escarlates. O garoto agradeceu por presenciar uma cena tão bela. Continuou seu caminho pela Cidade das Cabeças Baixas. Mas agora ele sabia que já ão fazia mais parte dela.

Friday, October 22, 2010

Serra, Globo e a bolinha de papel

Eu meio que prometi para mim mesmo que não publicaria nada sobre política e sobre as eleições deste ano no blog. Não que eu não me interesse, muito pelo contrário. Tenho acompanhado de perto e na medida do possível tudo sobre os candidatos, desde o primeiro turno. Porém, alguns acontecimentos nesses últimos dias simplesmente não puderam passar despercebidos, e eu terei de comentá-los aqui. Então ,se você tem paciência e quiser ler, e analisar se discorda ou não, continue lendo. Mas se tiver outra coisa à fazer, tudo bem.

E que fique claro logo no início do post: não sou petista, tanto que votei em Marina Silva (PV), para a vaga de presidente da República no primeiro turno. Mas se tem um candidato à mesma cadeira que eu simplesmente não engulo é o tucano José Serra. Ele, que afirma ter uma experiência na política como prefeito, deputado, senador e governador, parece não ter aprendido nada em todos esses cargos, a não ser à atuar. Isso ele faz melhor do que muitos atores da Rede Globo, sua fiel escudeira à lá Sancho Pança, que também terá seu momento de glória nesse texto.

O fato que, para mim, foi a gota d'água aconteceu no Rio de Janeiro, no começo dessa semana, durante campanha do candidato do PSDB. OK, você já sabe da famigerada histórinha da, hora bolinha de papel, hora rolo de fita crepe. O fato é que Serra se aproveitou, muito espertamente por sinal, do acontecido. É só ver a capa da Folha (ao lado), desta quinta-feira (21). Ela mostra um José Serra todo "dolorido" por causa de um objeto atirado contra sua cabeça - uma bola de papel e um pouco de fita adesiva, quando poderia ter sido um tijolo.

O tucano foi levado a um hospital, fez exames, alegou que o partidários do PT realizaram a "agressão" e chamou a todos de nazistas e fascistas. A verdade é que José Serra está desesperado, e já não sabe mais o que faz para tentar atrair novos votos para vencer Dilma Rousseff nas urnas no próximo dia 31. E quando digo que ele não aprendeu a fazer política, como alega, em todos esses anos como prefeito, governador e blá-blá-blá, é porque isso é visível até mesmo ao mais fervoroso dos coligados ao PSDB. Serra já foi o "Zé" no horário eleitoral, já disse que veio de família pobre e que sempre governou para o pobre, se fez de coitadinho, disse que Lula tem uma forte e importante história política e chegou ao cúmulo de dizer que é mais próximo do atual presidente do que Dilma.

Qualquer um percebe o efeito "Lula" sobre Serra. Mas, ao contrário dele, Lula sempre defendeu esse seu lado, ao contrário do tucano, que abusa da carinha - que não convence, candidato, não convence - de bom moço, de família operária e de estudante de ensino público - que nunca levou uma bolinha de papel na cabeça - para tentar atrair votos da classe mais baixa e (quem vamos enganar?), dos nordestinos.

Como se tudo isso já não fosse deprimente o suficiente... Aaahhhhhh, ainda temos a Toda-Poderosa Vênus Platinada Rede Globo de Televisão, que graças à evolução da raça humana, hoje já não é tão "toda-poderosa" quanto antigamente. Quem assistiu ao Jornal Nacional e ao Jornal da Globo na noite desta quinta, pode acompanhar a defesa da emissora para com José Serra. Foi vergonhoso. E, chego a afirmar, que qualquer pessoa, qualquer uma, sentiu nojo ou repulsa ao assistir aqueles sete minutos de reportagem. Eu senti. Cheguei a sentir vergonha de ser jornalista.

A matéria mostrando o porque das câmeras da Globo não terem filmado a "agressão" à José Serra, enquanto a concorrente o fez, foi deprimente. Pior foi ver comparações, insinuações, como se ela quisesse dizer assim: "Olha, você ai, tá vendo, meu candidato foi covardemente agredido pelos nazistas do PT e isso não pode ficar imune! Vota no Serra, vai, para que assim eu ganhe mais dinheiro! Por favor!".

Se uma emissora de tv, ou qualquer outro veículo de comunicação, apoia determinado candidato, que deixe isso muito bem explicado aos espectadores! Agora, fazer essa ceninha, transformando um fato à toa num desastre mundial à lá tsunami, é o cúmulo do puxa-saquismo. Fico me perguntando: e se, hoje, outros canais de tv não fossem tão importantes quanto a Globo? E se a internet não existisse? E se Serra não tivesse se transformado em piada no Twitter? Eu mesmo cheguei à uma conclusão: teríamos, no século 21, ano de 2010, uma nova eleição de 1989 no currículo da história nacional.



Wednesday, September 29, 2010

Um trio que apronta altas aventuras no transporte coletivo!

Olá pessoas. Faz tempo que não apareço por aqui para choramingar as mágoas do dia-a-dia. Bem, cá estou eu novamente para trazer à vocês mais uma crônica da vida real - o que, às vezes, é depressivo demais. Há algum tempo atrás, eu postei aqui a falta de noção de algumas pessoas dentro dos ônibus, esse transporte coletivo tão adorado pela raça humana, principalmente ao final de um longo dia de trabalho. Pois bem, e não é que hoje eu venho aqui contar à vocês a segunda parte dessa triste história, tão irritante quanto a primeira.

O horário era exatamente o mesmo. Final do dia, no trajeto de ida à mais uma noite de estudos na universidade (o que a gente não passa para ser alguém na vida, né não?). O ônibus em si não era o mesmo, mas a linha, sim. A única grande diferença é que, hoje, o coletivo não estava parecendo uma lata de sardinha gigante, abarotada de gente - o que pode ser considerado um milagre, já que ônibus e multidão é uma combinação tão comum quanto pasta e escova de dentes.

Mudou também o estilo musical ouvido. Saem os forrós e afins vindos do Norte / Nordeste do Brasil e entram Lady's Gaga, Paramore's e Rihanna's, diretamente do Hemisfério Norte do globo. Mas aí é que vem a novidade - e desculpe se, como bom jornalista, não evoquei aqui as regras do lead e coloquei a novidade lá no topo... queria criar um clima, sabe? Eles eram três. Assim, de relance, eu desconfio que eram Emos. Uma, eu tenho certeza, era uma garota. Os outros dois deveriam ser garotos - ou assim estava registrado na certidão de nascimento, mas vai saber...

Nem um pouco contentes em mostrar para TODOS do ônibus que eles tinham um celular potente e que reproduzia arquivos no formato MP3, colocando o som no último volume possível e fazendo berrinhos agudos modificados no computador ecoar pelo corredor, eles cantavam. Ah, e cantavam MUITO ALTO. E não, eles não cantavam bem. Só para exemplo de comparação, sabe aqueles candidatos toscos do "Ídolos", aqueles que só servem pra gente rir e para os jurados tirarem um sarrinho básico? Pois então, eles cantavam nesse nível ai.

Será que esse povo não tem noção que incomoda os outros não? Eu tenho uma amiga que tem uma frase muito boa, que irei reproduzir aqui: "A sua liberdade termina onde a minha começa". Claro, essa frase não se aplica à pessoas que fazem questão de colocar um som (gosto particular) numa altura em que todos são obrigados à ouvir. Me diz, para que inventaran o fone de ouvido? Sério, essa é a melhor invenção, melhor que a máquina de lavar, do que o MC Lanche Feliz ou do que o Sabre de Luz... E é mais barato do que esses também.

Gente, consciência é uma coisa barata! Cada um já nasce com a sua e não custa nada.

Wednesday, August 4, 2010

IPad ou 100 livros?


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Monday, July 12, 2010

O gol laranja que não veio


Uma cor predominava no salão tomado pelos torcedores: a laranja. Ela estava presente nas camisetas, nos chapéus e até mesmo nas cortinas que decorravam o local. Centenas de olhares, das mais variadas colorações, focados no telão. Sentidos entorpecidos pela adrenalina da partida e pelo som grave das vuvuzelas. Mãos à cabeça na chance desperdiçada pelo holandês Robben. "Uuuhhhhhh!", exclamava, em uníssono, a torcida mais holandesa do Brasil. Levar às mãos a cabeça foi mesmo o ritual mais comum entre os torcedores da Laranja Mecânica, na final da Copa do Mundo, contra a Fúria espanhola: as defesas de Stekelenburg, os gols perdidos de Robben e os chutes à gol de Sneijder eram sempre acompanhados de gritos de euforia ou decepção. Mas as mãos, sempre, iam à cabeça.

Se às 15h, meia hora antes do jogo começar, o salão ainda não estava cheio, o mesmo não podia ser dito às 15:30h, horário de Brasília, quando o jogo mais importante da competição começou. Era impossível andar sem esbarrar em algum holandês latino, devidamente trajado com as cores de sua seleção. E lá estava o laranja de novo. Estavam também câmeras. Repórteres. Microfones. Globo, Band, Gazeta, SBT. Todos tiveram a mesma ideia de pauta: cobrir o jogo da Holanda contra a Espanha na maior colônia holandesa no país mais tropical do mundo: Holambra, no interior do estado de São Paulo, a capital nacional das flores.

Por mais de 100 minutos, todos se esqueceram das flores. A preocupação era mesmo com a vitória da seleção holandesa. David Villa ataca, Stekelenburg defende! "Uuuhhhhhh!", grita a torcida. Robben parte pelo meio, após uma bela enfiada, mas se perde e Casillas defende. "Uuuuhhhh!", repetem centenas de pessoas, seguidas de vuvuzelas nervosas e cornetas mais tímidas. Todos os presentes, menos um pequeno grupo que preferiu vestir vermelho e arriscou torcer pela Fúria em meio aos holandeses, esperavam por um gol que prometia sair a qualquer momento. Mas não saia.

Quando a primeira - e única - bola estufou na rede, já nos minutos finais da prorrogação, quem gritou de alegria não foi a multidão de laranja, e sim, o pequeno grupo espanhol. Decepção. A barulhenta torcida de olhos e cabelos claros silenciou, e foi a vez da reduzida torcida espanhola explodir com suas bandeiras e vuvuzelas. O algoz holandês tem nome: Iniesta, que garantiu o primeiro título mundial para a Espanha e fez a Holanda amargar, pela terceira vez na história das Copas, o vice-campeonato. A festa programada não aconteceu. Cabisbaixos, torcedores deixaram o salão com a sensação de que faltou alguma coisa. A vitória, por exemplo.

Monday, June 7, 2010

Locomotiva à vapor

"Passeio Turístico - Maria Fumaça à 300 mts". A placa que indicava o caminho que eu deveria seguir acabou mostrando-se totalmente desnecessária. Ali, logo depois de uma curva leve à esquerda, a estação Anhumas já estava repleta de gente. Famílias inteiras chegavam, estacionavam seus carros e corriam comprar suas passagens, um pouco "salgadas" demais para a maioria das pessoas: o passeio custava R$ 50,00. Mesmo o alto valor não impediu que uma centena de pessoas se amontoasse à beira da estação quando o relógio marcou 10 horas. Dali a qualquer momento, o trem chegaria.

A Maria Fumaça chegou poucos minutos depois, enquanto o guia dava explicações à todos que, em breve, subiriam à bordo da locomotiva à vapor mais famosa do Brasil. Não é um erro afirmar que poucos prestavam atenção às suas palavras. O som do apito do trem, que se movia lentamente em direção à estação, não era um concorrente leal à sua voz. Os carros foram passando próximos aos futuros passageiros e o som do rotor, embora alto o suficiente para incomodar os mais desavisados, soavam como música para todos ali parados.

Olhei para a passagem que trazia na minha mão. Poltrona 12, carro 3. Em meio à multidão, protegendo a minha câmera fotográfica, caminhei até o meu destino. Essa câmera, na verdade, era o motivo de eu estar ali, diante de uma locomotiva de vários séculos atrás. Talvez, se não tivesse de estar ali para um trabalho da faculdade, nunca tivesse a oportunidade de conhecer a Maria Fumaça. Esse é um dos lados bons da faculdade: ter a chence de conhecer coisas que, se não fosse ali, passariam despercebidas.

Nessa altura do campeonato, o display da câmera já registrava umas 50 fotos tiradas, entre o momento da minha chegada à estação e a chegada da locomotiva em si. Esse número só aumentou. Chegou à mais de 460 no final do trajeto. Com a locomotiva totalmente parada, o guia pediu para que cada um assumisse sua poltrona. Em todos os carros, poucas ficaram vazias. Quando o trem partiu e soltou sua primeira baforada de vapor, fazendo o apito soar alto, a agitação dentro dos carros foi total. Pelo que parecia, a maioria da pessoas jamais havia estado em um trem à vapor antes, principalmente as crianças. Não posso negar: eu era uma dessas pessoas. Engraçado, havia visto coisas desse tipo apenas na TV, em novelas de época. De repente, eu mesmo estava ali. Foi como uma viagem no tempo, mas que durou pouco tempo. Muito pouco na verdade.


Logo na primeira curva, ao olhar pela janela, os barracos da favela erguiam-se diante dos turistas, que em sua maioria, sequer deram atenção à eles. Logo ficaram para trás e deram lugar à imensos pastos. A baixa velocidade do veículo, que percorreria apenas 24 quilômetros até seu destino (Jaguariúna), fazia com que essas paisagens demorassem à passar. Quando isso acontecia, lá estava uma fazenda de um barão do café ou uma pequena estação ferroviária. Depois, mais pasto. Mais canavial.

O cenário era quase sempre o mesmo, mas mesmo assim a magia que a Maria Fumaça lançava sobre cada um fazia com que nem mesmo as crianças parecessem incomodadas. Muito pelo contrário: todas pareciam eufóricas... Jaguariúna chegou, e com ela, o final da metade do nosso trajeto. Uma parada rápida para o almoço, já que dali poucos minutos seguiríamos de volta à Campinas... Mas isso já é assunto para um outro post...
Se você quiser ver mais fotos da viagem, acesse meu álbum no Flickr: www.flickr.com/photos/reenlsober

Monday, April 26, 2010

O (mal) exemplo da mídia

Como futuro jornalista, algumas coisas já não passam mais despercebidas por mim quanto antes. Mas, esses exemplos que citarei aqui, tenho certeza, não foram apenas percebidos por mim, aluno de jornalismo, como também por cada membro da sociedade brasileira. Antes de entrar no assunto, porém, vou explicar a obrigação básica de qualquer jornalista: ouvir, sempre, os vários lados do fato. Sim, ouvimos isso, muitas vezes, milhares de vezes durante o curso. Um fato nunca tem dois lados. Ele tem mais. Mas esses lados, muitas vezes, sequer são procurados.

Foi o que aconteceu na matéria que o jornal carioca "O Globo" publicou sobre o "Dia D", quando milhares de evangélicos se reuniram no Rio de Janeiro. O jornal tratou o assunto como "um dia de caos universal" e comparou o evento religioso ao desastre causado pelas chuvas, que mataram centenas de pessoas no estado. Os organizadores do evento, claro, nem foram procurados pela redação para comentar. Longe de mim querer defender uma ou outra segmentação religiosa, mas o que o jornal "O Globo" fez foi inadmissível. Claro, os jornalistas seguiram a linha editorial do veículo das corporações "Globo".

Não é de hoje que sabemos que a Globo tem se sentindo ameaçada pelo crescimento da Record e tem tentado, à todo custo, "quebrar as pernas" da emissora paulista. Esta, por sua vez, sempre revida, à altura. E foi o que aconteceu nesse domingo, no programa "Domingo Espetacular", que veiculou uma matéria apontando, justamente, essa "birra" da Globo contra os evangélicos. Quem sai perdendo, claro, somos nós, espectadores, que assistimos de camarote essa briga de egos inflados.

Outro exemplo de péssimo jornalismo, tão tangível quanto esse da briga Globo x Record, aconteceu na revista Veja, da Abril, a quarta maior em tiragem do mundo e a maior do país. A capa, com um José Serra todo sorridente e a frase "Sempre me preparei para ser presidente", deixa explícito muitas coisas. Todas contra o PT. Todas à favor do tucano. Será que a revista pensa que o público é trouxa? Será que ela não vê que é totalmente perceptível o apoio dela ao candidato à presidência? Sim, ela sabe de tudo isso, e na verdade, pouco se importa.

Wednesday, April 14, 2010

Olha ali, uma Presidenciável!


Dilma foi chegando de mansinho. No início da corrida eleitoral, José Serra, ex-governador do Estado de São Paulo e atual candidato do PSDB à Presidência da República, era tido como vencedor concreto. Marina Silva, que desligou-se do PT para concorrer às eleições pelo Partido Verde (PV), não parecia oferecer muito perigo ao tucano nas urnas. Porém, uma figura, até pouco tempo desconhecida pela sociedade, foi arrecadando possíveis eleitores pelas beiradas. Tida como a “sucessora espiritual” do atual Governo Federal, ou um “Lula de saias”, Dilma Rousseff (PT) foi caindo no gosto popular. Seja por acompanhar Lula em suas viagens por todos os cantos do Brasil – onde o petista faz questão de elogiar seus atos no governo e falar que, nas mãos dela, o país continuaria a crescer, fazendo inclusive com que o presidente recebesse algumas multas -, seja por anúncios grandiosos de benefícios à classe mais pobre, mesmo com muitos ainda não finalizados, a ex-guerrilheira tem crescido, e muito, nas pesquisas de intenções de votos, onde já aparece empatada, tecnicamente, com o tucano que tinha como certa sua mudança do Palácio dos Bandeirantes para o Palácio do Planalto.
Agora, com chances concretas de suceder a faixa presidencial do seu “companheiro” de partido, Dilma já não se mostra mais como aquela figura até então desconhecida. Os brasileiros a conhecem, apenas, como a ex-Ministra da Casa Civil e candidata à Presidência da República. Porém, Dilma nasceu em 14 de dezembro de 1947, portanto, tem 62 anos. O que ela fez durante mais de seis décadas para se tornar a atual queridinha de Lula, sim, ainda continua um mistério. Seria muito interessante mostrar aos jovens, que vão precisar escolher, entre vários candidatos, apenas um para comandar o país, mais sobre a história de vida dessa economista, sua trajetória política até a campanha que promete colocar, na posição máxima do governo brasileiro, pela primeira vez, uma mulher.

Wednesday, April 7, 2010

No ouvido dos outros é refresco

Final de mais um longo dia de trabalho. Ônibus coletivo lotado, com gente saindo pelo ladrilho. Já não bastasse todo o cansaço acumulado durante o dia, ainda há pela frente uma árdua jornada: horas e mais horas na universidade, só para depois, bem depois, poder, quem sabe, descansar e recomeçar tudo novamente. Essa é a rotina, todos os dias, de centenas de milhares de estudantes pelo Brasil - e, claro, é a minha também. Mas, é como diz o velho ditado, "tudo que está ruim pode piorar".


Pois bem, voltemos ao cenário anterior. 18:05h. Comecinho da noite. O ônibus coletivo municipal ziguezagueia pelas ruas da cidade, em direção à mais uma noite de estudos. Bancos totalmente lotados, assim como o corredor do veículo. Um mar de mão encimava a cabeça dos passageiros, procurando um ponto de apoio para protejer-se de um possível tombo. Como se a experiência já não fosse ruim o suficiente, adicione a ela uma pessoa com o mínimo de respeito e bom senso possível, com um celular que parecia acoplado à um auto-falante, tocando uma música prá lá de esquisita (nada contra o forró, mas...).

Ok, cada um tem seu gosto musical. Mas ninguém ao redor é obrigado a gostar daquilo que os mais mal-educados preferem ouvir. Será que a pessoa nunca ouviu falar de fone de ouvido? Então, é uma invenção nova, na qual você pode ouvir a música que quiser, poupando as pessoas ao redor de compartilhar de um momento de gosto musical duvidoso. Moço, fone de ouvido. Fone de ouvido, moço. Agora estão devidamente apresentados. Uma parada numa esquina, e lá vai o rapaz, com seu celular-auto-falante emitindo aquela música lastimável. Eis que me dou conta: eu não era o único em querer enxotar o rapaz dali. Foi ele descer do veículo que o burburinho começou. "Que falta de respeito", dizia uma senhora perto de mim. Olha, senhora, compadeço da sua indignação, pensei eu.

Essa foi apenas uma das vezes que presenciei essa atitude de querer transformar o ônibus num verdadeiro bailão. Quem precisa usar os coletivos municipais ou intermunicipais estão fadados a presenciar isso, do mesmo modo que estão destinados a cochilar de boca aberta ou ter que ficar próximo à alguém que esqueceu de usar o desodorante. Vida emocionante a daqueles que usam os "busão".

Tuesday, March 23, 2010

A vida lida na palma da mão

O garoto estendeu a mão direita, com um certo receio e uma expressão de desconfiança no olhar. Já tinha conversado com alguns amigos à respeito, e eles, por sua vez, comentaram que dava certo e que tudo o que eles haviam ouvido da mulher fazia todo o sentido. Então, ele achou melhor arriscar, afinal, não tinha nada a perder. A mulher segurou, com força, a mão do rapaz. Virou-a com a palma para cima, na direção na luz, e aproximou o olhar. Aproximou também o seu dedo indicador, que percorreu suavemente as linhas, pouco marcadas, na palma da mão do rapaz.

Ficou alguns segundos em silêncio. Tudo no mais absoluto silêncio. Um sentimento de arrependimento foi surgindo no garoto. E se ela lê-se, ali, alguma coisa ruim? E se ela descobrisse que ele estava à beira da morte? E se ele fosse perder o emprego? E se? E se? Uma tempestade de pensamentos negativos tomou conta do rapaz, que teve vontade de puxar sua mão de volta para si, rápido e forte. Mas não fez isso. A mulher continuou olhando fixamente para a palma da mão clara e jovem dele, até que as palavras foram espirrando de sua boca, como água da torneira.

"Você se deixa levar muito pela emoção", analisou a mulher, que continuou. "Sempre toma qualquer atitude levando em consideração o que o seu coração diz... Mesmo assim, o seu ponto positivo é a razão... Um garoto muito racional e inteligente". Cada palavra dita pela mulher fazia com que o jovem ficasse ainda mais desconfiado. Poderia confiar nessas coisas? Nunca foi de acreditar nesse tipo de "previsão", seja ela feita nas mãos, nas cartas ou até mesmo nas mensagens do zodíaco que lia no jornal. Na verdade, só as lia por diversão. Algumas vezes as mensagens batiam, outras não. Coincidência. Simples assim.

Mas, agora, podia ele confiar no que aquela mulher lhe dizia? Não sabia. "Uma mulher vai lhe marcar para o resto da vida", prosseguiu ela, ainda com os olhos fixos na palma da mão do rapaz. "E você terá um filho", finalizou. Ergueu os olhos e encarou o garoto, esperando alguma pergunta. Nenhuma surgiu. Na verdade, apenas brotou-lhe da boca um agradecimento, e saiu da sala onde estava com a mulher. Como ela havia "visto" essas coisas, perguntava-se, olhando ele próprio para sua mão.

Resolveu não pensar mais no que havia ouvido. Caminhando, decidiu que iria esperar. Esperar e ver, por si próprio, se ela havia visto a coisa certa, afinal, qual é a graça de se viver já sabendo o que vai acontecer em seguida?

Monday, March 22, 2010

Vida à reboque!

Toda vez que o telefone toca, o sr. Nivaldo sabe que é hora do seu caminhão reboque entrar em ação. Não importa local, horário ou classe social. O veículo, sempre valente, está pronto para o chamado. Ele funciona como uma espécie super-heroi anônimo, sem capa ou máscara, mas que sempre acaba salvando o dia de quem está metido em apuros. "Lá, do outro lado da cidade, tem um carro com o motor pifado", avisa a atendente ao telefone. E assim parte o motorista e seu fiel escudeiro, cochilando ao seu lado, com seu reboque, pronto para ser o super-heroi de mais um alguém no meio na noite. Tem sido assim nos últimos cinco anos. Carros novos e carros velhos, importados ou nacionais, de gente rica ou de gente pobre. "Não importa", ri, enrugando-lhe ainda mais o rosto já enrugado. "Já reboquei carro de tudo quanto é jeito". Chega, para, prende e parte. Em cinco minutos, já dispara pela rodovia. O motorista salvo, assim como um cidadão após uma aparição do Super-Homem, agradece ao homem, já cansado da noite de trabalho. E o reboque corta a noite, enquanto o fiel escudeiro do rebocador ainda dorme, desconfortável, encostado no banco do valente veículo. Os minutos passam, assim como os veículos na rodovia, e o reboque faz sua entrega. O motorista agradece pela última vez e desce, despedindo-se do homem que lhe ajudara. O reboque, então, parte de volta ao seu ponto de origem, iluminando a noite com seus farois. Quem sabe, no meio do caminho, um outro pedido de socorro, faça com que o valente reboque e seu confiante motorista, junto ao fiel e sonolento escudeiro, tenham mais um momento de heroísmo.

Monday, March 15, 2010

O bem mais precioso

O ônibus parou na esquina, perto de um terreno baldio. Sonolento, despedi-me do motorista e desci. Caminhava em direção à minha casa quando ele partiu com o ônibus. Iria deixar mais estudantes em suas casas. Era noite de sexta-feira, e enquanto muita gente estava na "badalação" do início do final de semana, a coisa que eu mais queria era tomar um banho e dormir, depois de um dia cansativo (e quente) de trabalho e estudo. Não que eu não goste de uma bagunça, muito pelo contrário: apenas prefiro deixá-la para os sábado ou domingos.

Caminhei apressado, ao som dos latidos dos cães dos vizinhos e debaixo da luz da lua. Tirei a chave do bolso da calça, destranquei o portão e entrei. As luzes da sala e da cozinha estavam acesas. Abri a porta da sala e entrei. Segui pelo corredor, entrei no meu quarto e joguei a mochila sobre a cama. Pendurado, atrás da porta, estava meu pijama. Certo, não é bem um pijama, desses caros. Não. Na verdade, não tem nada de caro. Sabe essas camisetas de políticos, que a gente ganha aos montes durante as campanhas eleitorais? Pois é, era uma dessas. O que me faz lembrar que esse ano vou ganhar muitos "pijamas" novos...

Peguei a minha roupa de dormir e segui, animado, em direção ao banheiro. Depois de um dia de verão, nada melhor do que um banho gelado para aliviar o cansaço e dormir feito um anjinho. Mas fui interrompido, no meio do caminho, pela minha mãe. "Vê se toma um banho rápido", disse ela, taxativa. Ergui uma sobrancelha. "Por quê?", perguntei. Ok, mereço ir para o inferno, se ele realmente existir: não tomo banhos rápidos. Demoro. E lá vai a água pelo ralo. "Porque...", respondeu ela, "Por que estamos sem água desde ontem de manhã".

Assim começou meu querido final de semana. Com um banho daqueles que mal se molha o couro cabeludo. Não que não tivéssemos água em casa, nós tínhamos. Mas era a água do reservatório, e era necessário economizá-la, afinal, não sabíamos quanto tempo demoraria para que o abastecimento voltasse. "Ei, moça, estamos sem água, quando é que ela vai ser reestabelecida?", perguntou minha mãe à atendente do serviço de abastecimento da minha cidade. "Não temos previsão, senhora. É uma manutenção".

Demorou exatos quatro dias. Quinta, sexta, sábado e domingo. Quatro dias sem água, tendo que tomar banhos rápidos, economizando também na hora de cozinhar e gerando caridosas ofertas de chuveiros amigos para poder lavar tudo decentemente. "Não, não precisa", respondia. Foi desse modo, nada agradável, diga-se de passagem, que descobri uma coisa que há muito já ouço por ai. Não existe bem mais precioso do que a água. Petróleo, dinheiro, energia elétrica... Isso tudo é "dispensável", afinal, o ser humano já viveu sem esses, hoje, indispensáveis confortos modernos. Mas sem a água, não dá. Hã-hãm. Necatipiriba. Só quando sentimos na pele a falta dela, é que damos a sua devida importância.

Me peguei pensando, durante todo o final de semana, o quão difícil deve ser a vida de quem, realmente, não tem água, como a população de alguns países africanos, por exemplo. Afinal, eu passei apenas alguns dias sem ela. Hoje pela manhã, minha mãe já lavava toda a roupa, que havia se acumulado durante esses quatro dias, enquanto eu dormia. Mas, muitos milhões de pessoas não podem contar com esse benefício obrigatório, durante boa parte de suas vidas. E não é necessário sair do Brasil para verificarmos isso (alguém ai falou Nordeste?).

Não quero entrar, aqui, na discussão de que se vai ou não faltar água no planeta no futuro, e nem quero deixar aquelas lições de moral esdrúxulas que Hollywood teima em querer enfiar em nossas cabeças naqueles filmes "B". Não, nada disso. Apenas quero mostrar o quão complicado pode ser a vida sem uma coisa tão simples quanto a H²0. Foi uma experiência única, que não faço a menor questão de vivenciar novamente.

Friday, March 12, 2010

Uma nau de sentimentos...

Amor. Raiva. Paixão. Piedade. Ódio. Tristeza. Incrível como o ser humano pode ter tantas sensações ao mesmo tempo. Irritação com o computador travado; alegria ao receber um e-mail daquela pessoa especial; impaciência com a moça do call center ao telefone; revolta ao ler sobre a morte de uma pessoa boa demais para ter partido. Tudo isso, no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo minuto...

Cães estão sempre felizes, principalmente quando, depois de um dia sem ninguém para brincar, ouvem o barulho do portão se abrindo e o som dos passos do seu dono que se aproxima. Quando isso não acontece, pronto, você sabe que seu animal não está bem. Os seres humanos não são assim. É como se precisássemos andar por ai com uma bola de cristal, igual à da Mãe Dinah, para adivinhar como aquela pessoa está naquele momento. Brigou com alguém? Prendeu o dedo na porta? Tropeçou na beirada da cama? Ouviu um "Eu te amo" do amor de sua vida? Ouviu um "não" do amor de sua vida?

Impossível a gente saber disso de imediato... Sabe como a pessoa está se sentindo assim, de imediato... Mas a gente sabe quando o cachorro está feliz.